sexta-feira , junho 23 2017

Em Rondônia, 60% dos desmatamentos ocorreram em área sem cadastro obrigatório

BELÉM – A Amazônia voltou a ser a região do mundo que mais suprime florestas, nos últimos dois anos. O desmatamento ocorre em áreas públicas não destinadas, que pertencem à União, mas não são usadas e nem foram protegidas. A cada 24 horas, 2.160 hectares de florestas são desmatados, o equivalente a 2.160 campos de futebol por dia.

Pior: a área desmatada não tem sido usada para atividades produtivas. Dos quase 762.464 km² já desmatados, apenas 5,9% são usados para agricultura e 49,6% são pastos de ativos de criação de gado, segundo dados do projeto TerraClass, destinado a qualificar o desmatamento na Amazônia Legal. As áreas urbanizadas ou com moradia humana representam menos de 1% dos espaços desmatados, apenas 0,8% do total.

As informações foram divulgadas no Simpósio Amazônia Sustentável, organizado pela Rede Amazônia Sustentável, que reúne cientistas e representantes da sociedade civil nesta terça-feira em Belém, no Pará.

— Entre 2004 e 2014, o Brasil desmatou pelo menos 7 milhões de hectares à toa. Isso significa metade de tudo que foi desmatado no período — afirma Tasso Azevedo, do Observatório do Clima.

Enquanto se desmatava, 14,8 milhões de hectares, as áreas abandonadas, que apresentam crescimento de vegetação rasteira, cresceram em cerca de 7 milhões de hectares entre 2004 e 2014, alcançando 173 mil km². Nada menos do que 13,4% da área desmatada é formada por pastos abandonados ou não usados.

Mauro Lúcio Costa, ex-presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Paragominas, um dos municípios verdes do Pará que conseguiu conter o ritmo do desmatamento, afirma que é preciso fiscalizar a manutenção da reserva legal.

—Cheguei ao Pará há 41 anos e até hoje quem não tem reserva legal trabalha normalmente, sem ser incomodado. E são muito mais ricos do que eu, que cumpri a lei. A ilegalidade gera muito dinheiro e é preciso que haja penalidade para quem age ilegalmente — diz Costa.

Azevedo, do Observatório do Clima, lembra também que as terras já usadas pela pecuária são improdutivas, com menos de um boi por hectare. Na agricultura também é preciso conquistar ganhos, já que a maioria dos produtores conseguem fazer apenas uma safra por ano, enquanto em outros estados são duas safras anuais.

—Ninguém desmata para não ganhar nada. Há um ganho imobiliário que precisa ser combatido ou não vamos chegar a lugar algum — diz Costa, que defende a criação de mais áreas protegidas na Amazônia para evitar o avanço do desmatamento.

Costa explica que o desmatamento existe porque ocupar áreas ilegalmente na Amazônia é um excelente negócio, sem qualquer fiscalização.

—Um hectare de floresta nativa custa R$ 200 em São Felix do Xingu, por exemplo. A pessoa gasta R$ 1.200 para desmatar e ocupar e, em dois anos, recupera o gasto e passa a ser dono da área. Todo mundo sabe onde começa a fazenda de um e de outro — conta o pecuarista.

Se fosse comprar um hectare de fazenda regularizada, o preço por hectare chegaria a R$ 5 mil ,25 vezes mais. É a chamada especulação imobiliária que, segundo Justiniano Neto, secretário do Programa Municípios Verdes do Pará, tem sido financiada por grandes capitais e precisa ser contida com ações policiais.

Segundo Tasso Azevedo, no último ano 60% do desmatamento em Rondônia, por exemplo, ocorreu em áreas rurais que não têm Cadastro Ambiental Rural, obrigatório a todos os proprietários rurais,e deveriam simplesmente ser embargadas.

—Temos que ter atitudes impiedosas e mostrar que não é possível compactuar com isso.


Fonte: oglobo

 

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